Publicado por: Eliania Silva | segunda-feira abril 9, 2012

Acupuntura

Semana passada assisti um jornal e um médico dava entrevista sobre acupuntura. Ele, todo orgulhoso, falava de como foi importante a decisão do tribunal em legalizar a acupuntura como ato médico, porque eles estudam mais, estão mais preparados…Não venho aqui argumentar que ele esteja errado ou certo, apesar de não concordar com suas palavras uma vez que todos somos capazes de aprender e que todo profissional que deseje utilizar alguma técnica de tratamento tem que se preparar, estudar, ter certeza de que adquiriu o conhecimento necessário para não prejudicar seu cliente.

Vim apenas postar um artigo que recebi falando um pouco sobre o histórico dessa técnica e de como é um erro monopoliza-la para uma classe profissional.

“Meu Acupunturista é médico e o seu?”
Por Cláudia Rodrigues
Postado no Blog Saúde Brasil em 01/04/2012

Por recurso do Conselho Federal de Medicina o Tribunal Regional Federal da
1ª Região, em Brasília, decidiu pela proibição da prática da acupuntura
por quaisquer profissionais da saúde que não tenham formação em faculdades
de medicina. A decisão da última terça-feira está valendo a partir da
publicação oficial, ainda que as demais categorias recorram. Acupuntura no
Brasil agora é ato médico. Exclusivo.
A política médica que ganha hoje no país a exclusividade para a prática da
acupuntura já desqualificou a técnica nos mesmos tribunais. No final dos
anos 1960 a categoria posicionou-se contra a prática da acupuntura,
considerando-a charlatanismo.
Acupunturistas foram presos acusados de curandeirismo, estavam totalmente
desprotegidos pela legislação.
No início dos anos 1970 o Conselho Federal de Medicina rejeitou
oficialmente a acupuntura e a reflexologia como atividades médicas. O
Conselho de Medicina de São Paulo censurou publicamente o médico Evaldo
Martins Leite por praticar acupuntura, Naquela época, ainda que em outros
países a acupuntura estivesse sendo reconhecida e procurada como uma nova
ferramenta de trabalho por vários profissionais, entre eles os médicos, no
Brasil era uma vergonha ser médico e defender a acupuntura.
Os resultados práticos dos efeitos da terapia oriental eram inegáveis e
vários países foram envolvidos em estudos para testar sua eficácia sob os
paradigmas da pesquisa ocidental. Em 1977 o Brasil chegou a reconhecer a
acupuntura como ocupação profissional. A Organização Mundial de Saúde, na
mesma época, além de reconhecer, recomendava a prática. Os usuários
surgiam, os profissionais acupuntores, vindos das mais variadas áreas de
saúde, se multiplicavam.
Médicos brasileiros, contrariando o CFM, começaram a fazer a formação com
o alemão naturalizado brasileiro Friedrich Jahann Spaeth na antiga sede da
Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro em 1979. Spaeth, que era
fisioterapeuta, massoterapeuta e acupunturista formado na Alemanha, fundou
no Brasil, em 1958, a primeira instituição voltada para a prática da
acupuntura, a Sociedade Brasileira de Acupuntura e Medicina Oriental.
Antes dele, a acupuntura já existia nas comunidades chinesas desde 1812 e
nas japonesas desde 1895. Os imigrantes orientais usavam-na entre eles,
mas nunca se organizaram para difundi-la.
Em 1961 desembarcou no Brasil Wu Tou Kwang, médico cirurgião vascular, que
também passou a formar acupuntores, sempre defendendo a atividade como
democrática, multidisciplinar, barata e eficaz. Na mesma década vieram os
coreanos trazendo uma acupuntura diferente da japonesa e da chinesa.
Enquanto isso, nos Estados Unidos, o psicólogo Reuben B. Arnber, aluno de
acupuntura de Wu Wei Ping, iniciava uma jornada política pela
regulamentação da acupuntura.
Mesmo sem apoio do Conselho Federal de Medicina, mais médicos passaram a
frequentar cursos de acupuntura. A terapia oriental funcionava, eles
podiam atestar, fervilhavam as pesquisas com revelações surpreendentes
sobre o uso e a eficácia da técnica das agulhas. Politicamente era um
problema a acupuntura ser lecionada por não-médicos, a autoridade
principal do assunto não ter formação médica. Em 1980, pelo fato de não
ser médico, Frederich Spaeth foi destituído da presidência da Associação
Brasileira de Acupuntura pelos seus ex-alunos médicos. No raciocínio
político, os médicos precisavam assumir a técnica, agora que ela era
respeitada pela ciência. Banir os papas da acupuntura no país significava
desvincular da ideia inicial, produzida pelos próprios conselhos de
medicina, de que era charlatanismo. Perversão pouca é bobagem. E o
judiciário ali, de testemunha na corrida do ouro.
Na bela Recife de 1981, no I Congresso Brasileiro de Acupuntura, a
manifestação de repúdio aos profissionais tradicionais de acupuntura por
parte de médicos corporativistas tomou forma oficial e em 1984, em outro
congresso da categoria, em Brasília, os médicos separaram-se oficialmente
dos demais acupuntores para fundar a SMBA- Sociedade Médica Brasileira de
Acupuntura.
Quatro anos depois o médico-deputado paulista Antonio Salim Curiati deu
entrada ao projeto PL852/88 a favor da prática multidisciplinar da
acupuntura. No mesmo ano a CIPLAN, comissão interministerial de
Planejamento, após se reunir exclusivamente com representantes da SMBA,
baixou resolução normatizando o emprego da acupuntura nos serviços
públicos médicos assistenciais, restringindo a prática apenas para
médicos.
Em 1991, uma resolução em assembléia da OMS recomendou a intensificação de
cooperação entre as medicinas tradicionais e a científica moderna, com
medidas reguladoras dos métodos de acupuntura. O PLC Nº383/1991 para
regulamentação da acupuntura foi aprovado, inclusive por todos os
conselhos de medicina.
Não durou muito o aparente sossego. Em 1993 a Secretaria Nacional de
Vigilância Sanitária publicou um relatório com recomendação de que a
acupuntura fosse monopolizada pela classe médica. O seminário, que
resultou na recomendação, foi composto por 12 médicos da SMBA, 2 médicos a
favor dos acupunturistas de outras formações e um profissional não-médico.
Os médicos Wu Tou Kwang e Evaldo Martins Leite recorreram ao senador
Valmir Campelo convencendo-o a mudar de opinião e democratizar a
regulamentação para todos os profissionais da área saúde. Um
abaixo-assinado contra o monopólio médico da acupuntura, com 45.000 nomes,
sendo 300 de assinaturas de médicos, foi enviado ao Senado.
Em 1997, uma nova manobra com emendas em plenário dos senadores médicos
Lucídio Portela e José Alves tentou restaurar o monopólio da acupuntura
para os médicos. Depois de muitos imbróglios, foi derrotada e a acupuntura
se fortaleceu como profissão da área de saúde, respeitando suas origens
não-médicas, podendo ser praticada por assistentes sociais, terapeutas
ocupacionais, biólogos, profissionais da educação física, biomédicos,
enfermeiros, farmacêuticos, fisioterapeutas, fonoaudiólogos, médicos,
médicos veterinários, nutricionistas, psicólogos e odontólogos.
Entre os anos 1980 e o final dos anos 1990, segundo dados publicados no
Journal of the American Medicine Association, as chamadas “terapias
alternativas” cresceram de 7% para 47% e a previsão era de que
continuassem em elevação. No judiciário brasileiro somavam-se processos
contra o exercício ilegal da medicina por acupunturistas não-médicos. O
acesso ao livre exercício da profissão por outras categorias da área da
saúde enfrentava atos arbitrários sucessivos do Conselho Federal de
Medicina.
As organizações pró-acupuntura multidisciplinar foram crescendo e se
fortalecendo política e praticamente, já com base em evidências
científicas, o que é raro nas terapias alternativas. Ainda em 1998,
cientistas na Universidade da Califórnia comprovaram por meio de
ressonância magnética que os pontos da acupuntura estavam mesmo ligados a
importantes órgãos internos e funções do corpo. Era ciência, uma ciência
caindo nas mãos de seus próprios criadores e eles faziam com ela o que bem
quisessem, até formavam profissionais não-médicos! Foi um momento
desesperador para os médicos corporativistas.
Em 1999, ano de muito crescimento em pesquisas, fundações de instituições
e popularidade da acupuntura, cresceram os debates. Nesse ano estimou-se
que 5.000 médicos e 20.000 profissionais de outras áreas da saúde faziam
uso da acupuntura.
Em 2000, nova broma. Um grupo de médicos brasileiros enviou relatório ao
Senado afirmando que na China, berço da acupuntura, ela era lecionada
exclusivamente em escolas médicas. Não deu certo: num lance digno de
profissionais éticos, o diplomata Affonso Celso de Ouro Preto, embaixador
do Brasil na China, enviou carta ao Senado afirmando que, na China, “a
acupuntura é uma atividade socialmente independente da medicina alopática
ocidental”, sendo regulada pela Secretaria Nacional de Administração da
Medicina Chinesa, sem qualquer ligação com a medicina alopata clássica.
Em 2000, após o arquivamento da tentativa de monopólio da acupuntura pela
classe médica no Senado, a Sociedade Médica Brasileira de Acupuntura
lançou a campanha com a pergunta – “Meu acupunturista é médico, e o seu?”
— que induzia o eventual usuário a duvidar da capacidade dos
acupunturistas vindos de outras áreas da medicina.
E assim, nesse ritmo, continuou nos últimos 12 anos. A briga contra o
exercício da acupuntura por outros profissionais da saúde é a mesma velha
briga da medicina por mercado, por vaidade, por poder, por medo de perder
o poder, como fica claro nessa breve e resumida história sobre a batalha
particular entre médicos corporativistas e todos os outros profissionais
de saúde que foram surgindo ao logo da história por consequência natural,
e podemos afirmar, por ciência, derrubando crenças médicas.
A guerra de hoje é a mesma que atravessa séculos contra o exercício pleno
e legítimo do trabalho das parteiras, das enfermeiras. A mesma que levanta
piadas contra o trabalho dos psicólogos, dos terapeutas, a mesma luta
covarde contra os direitos dos profissionais da fisioterapia, dos
optometristas. É a mesma, é o de sempre, é mais do mesmo. Não
surpreenderia tanto se esses profissionais da medicina não fossem tão bem
formados, tão bem treinados em incontáveis horas de estudo e treinamento
técnico. Fica difícil compreender como profissionais de alto gabarito
podem usar de estratégias e manobras políticas tão baixas, idênticas às
que utilizavam na Idade Média.
O espírito competitivo, predador e excludente dos representantes oficiais
dos médicos no Brasil ainda levará a categoria inteira para o fundo do
poço, o mesmo velho poço que tem servido para sepultar todos aqueles que
ao longo da história da medicina foram acusados de charlatões.

———————————————————-
Mensagem enviada pelo webmail da MPC Internet: a Internet que funciona.
http://www.mpc.com.br

Anúncios

Responses

  1. Olá Eliania, achei esse espaço extremamente interessante e útil.
    Gostaria de sabe se você sabe de algum curso de Escala de Denver.
    Caso conheça, por favor me fala, por favor.

    • Olá Alysson!
      Obrigada pelo comentário.
      Muita gente me faz o mesmo pedido que você fez e infelizmente vou ter que te dar a mesma resposta que dei pra ela, não sei onde ou quem pode dar esse curso.
      Entrei em contato com um amigo promotor de eventos pra saber se ele tinha conhecimento de alguém qualificado para dar esse curso mas até agora ele não encontrou ninguém.
      Se eu tiver alguma informação será disponibilizada aqui.
      Sucesso!

  2. Ola Eliane! também sou TO em muriaé MG amo minha profissão.
    gostaria de estudar sobre acupuntura . você poderia me passar alguma coisa sobre o assunto.


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Categorias

%d blogueiros gostam disto: