Publicado por: Eliania Silva | sexta-feira janeiro 6, 2012

A diferença entre o óbvio e o sutil

Excelente texto da professora Angela Souza, publicado em 2007:

A Terapia Ocupacional assim como outras profissões consideradas jovens na história da humanidade, vem seguindo uma trajetória em busca da sua identidade. Nesse caminho a concepção do senso comum baseado no óbvio, naquilo que se observa de relance, às vezes, nos trás caracterizações um tanto desagradáveis, como por exemplo: “Ah! A sua profissão é aquela que brinca, bate palmas e ocupa as pessoas com atividades!” Mais preocupante ainda, para nós Terapeutas Ocupacionais, é quando recebemos os relatos de acadêmicos angustiados com comentários: “As pessoas me perguntam se estou estudando todo esse tempo para aprender a fazer crochê e pintar com os doentes”.

Em função disso me reportei ao dicionário em busca do significado do adjetivo “óbvio” e encontrei dois itens explicativos: 1) De fácil compreensão; 2) Claro, Evidente, Manifesto e Patente. Então conclui que quando outras pessoas nos observam atuando, o que elas conseguem perceber é apenas o “óbvio”, ou seja, segundo o dicionário, o que está “evidente”, “manifesto” e “patente” naquele ato específico de estar fazendo uso de atividades artísticas como a pintura ou de dinâmicas lúdicas como o brincar de roda, o que justifica de certa forma os comentários acima.

Nos dias atuais em que a tendência é simplificar e generalizar para ganhar mais tempo e dinheiro, fica realmente complicado compreender a complexidade que há por detrás de uma ação, de um fazer, de uma manifestação ou de uma postura. Enxergar mais além, desvendando seus dizeres, representações e significados dependem de um olhar mais “sutil”, senão acabamos por ter sempre conclusões errôneas e precipitadas como achar que Engenharia é só colocar um tijolo sobre o outro, ou que Mecatrônica é apenas a soma dos conhecimentos da Mecânica com a Eletrônica.

Sendo assim, mais uma vez me reportei ao dicionário para procurar o significado do adjetivo “sutil” e encontrei quatro itens explicativos: 1) Tênue, delicado, fino, leve; 2) Agudo, apurado, penetrante; 3) Quase impalpável; imaterial; 4) De habilidade apurada, engenhoso. Comecei a analisar pelo último item, lembrando o quão “engenhoso” é fazer uma avaliação criteriosa na busca incessante de descobrir qual a problemática causadora da queixa principal que faz o paciente nos procurar. Continuei, pensando na “habilidade apurada” e na competência em compreender a psicodinâmica e as propriedades das atividades, que nós Terapeutas Ocupacionais precisamos ter, para selecionar aquela que contemple os objetivos terapêuticos, transformando realidades.

Passei, então, para o 1° item notando o quando “tênue” é perceber, por exemplo, que em determinado momento selecionamos a tinta à óleo e não a tinta guache, baseadas nas propriedades que ela possue, para desenvolvermos mais tolerância à frustação na pessoa que pratica a pintura; e como é “delicado” identificar que uma simples mudança no ambiente ou no posicionamento de um objeto dentro do processo terapêutico pode ser responsável por alterações de comportamentos significativos.

É realmente “sutil” na nossa prática profissional perceber que o ato de fazer crochê, por exemplo, se caracteriza como uma atividade estruturada e não apenas sob a perspectiva do “óbvio” como algo que acalma. Ou seja, o crochê pode proporcionar a pessoa que pratica uma reorganização interna ou até mesmo pode servir para recuperar uma função perdida. E para chegarmos a essas conclusões dependemos de uma análise desse “fazer” minuciosa, considerando diversos fatores, entre eles biomecânicos, simbólicos e sócio-culturais.

Então, para compreendermos a complexidade desta atividade buscaremos a base no 2° item do significado de “sutil” no dicionário, para analisarmos o crochê de forma “aguda”, “apurada” e “penetrante”. Vejamos: somente através do olhar “óbvio” não poderíamos compreender que a sequência e repetição dos pontos do crochê ocasiona um ritmo e um padrão de movimentos que adequam o tônus muscular, e por sua vez este padrão estabelece um ritmo respiratório mais equilibrado, facilitando uma maior oxigenação do corpo e do cérebro, que passa a pensar melhor e encontrar soluções para os conflitos internos, reorganizando-os ponto a ponto.

Diante de tudo isso, percebi que compreender o sentido real das coisas muitas vezes é “impalpável” e “imaterial”, como é definido o significado de “sutil” e a partir disso tive uma conclusão “óbvia”, no sentido “de fácil compreensão”, que foi: a Terapia Ocupacional sempre trabalha sob a perspectiva do “sutil” e quem observa fora do contexto, está atrelado ao senso comum, sob a perpectiva do “óbvio”.

Prof. Angela Maria Cecim de Souza

(Docente do CEST)

Espero que auxilie a esclarecer sobre o papel do terapeuta ocupacional e a reduzir os índices da Síndrome de Burnout na Terapia Ocupacional

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Responses

  1. Adorei essa reflexão, como Terapeuta Ocupacional que sou, tambem me incomoda as pessoas não entenderem a importância da nossa profissão.
    Parece que minimizam de tal forma que, só mesmo compartilhando com o artigo a cima e continuar nossa caminhada, fazendo o nosso melhor, com Amor, Ética e comprometimento que iremos refletir os resultados da nossa
    atuação.
    Abraço, Sueli

  2. vou começar a fazer TO no segundo semestre desse ano, foi muito importante ler o teu depoimento 😀

    • Ola Giovana!
      Que bom saber.
      Muito sucesso pra você.


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